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O envelhecimento do rosto começa muito antes das rugas

  • Foto do escritor: Lizia Borrello
    Lizia Borrello
  • 10 de jul.
  • 8 min de leitura

Quando uma pessoa se olha ao espelho e sente que o rosto envelheceu, normalmente atribui essa mudança às rugas.

Outras acreditam que o problema está apenas no pescoço.


Na realidade, o envelhecimento facial costuma começar muito antes disso.

As rugas são apenas uma das manifestações de um processo muito mais complexo, que envolve todas as camadas da face.


É precisamente por isso que duas pessoas com a mesma idade podem transmitir impressões completamente diferentes.




O rosto não é apenas pele

Muitas pessoas imaginam o rosto como uma camada de pele que, com o passar dos anos, vai perdendo firmeza.


Na verdade, a pele é apenas a camada mais superficial.

Por baixo dela existe uma estrutura complexa, composta por músculos, gordura, ligamentos e osso. A figura abaixo ilustra exatamente essa organização.


Figura – Representação esquemática das camadas da face; sendo de cima para baixo: dermis, representando a camada superficial da pele; retinacula cútis, camada logo a baixo da pele, local que se aloja a gordura do rosto; SMAS, é o complexo de músculos; Retaining ligamente, são estruturas que conectam todas as estruturas do rosto; periosteum, é uma camada que nutre o osso; Bonne, são os ossos da face, que da origem ao formato do rosto.



Todos estes componentes trabalham em conjunto para manter o contorno facial, sustentar os tecidos e preservar a expressão natural do rosto. São eles que conferem harmonia, proporção e o aspeto que associamos a uma face jovem.


À medida que essas estruturas sofrem alterações naturais, a aparência também muda.

É um processo fisiológico, ou seja, faz parte do envelhecimento normal. Com o passar dos anos, essas estruturas perdem progressivamente a sua capacidade de sustentação e o formato do rosto vai-se modificando.



O que acontece ao longo dos anos?

O envelhecimento não acontece de um dia para o outro.

É um processo gradual e fisiológico, ou seja, faz parte do envelhecimento natural de todos nós.


Ao longo dos anos, várias estruturas da face sofrem alterações simultaneamente. Entre as principais, podemos observar:

  • diminuição da produção de colagénio e elastina, tornando a pele menos firme e menos elástica;

  • perda e redistribuição da gordura facial, reduzindo o suporte de determinadas regiões;

  • enfraquecimento dos ligamentos responsáveis pela sustentação dos tecidos;

  • alterações na dinâmica muscular, que modificam a expressão facial ao longo do tempo;

  • remodelação óssea, que altera discretamente a arquitetura do rosto.


Nenhuma destas alterações acontece de forma isolada.

Todas elas ocorrem lentamente e somam-se ao longo dos anos. É precisamente essa combinação que modifica o formato do rosto e faz com que o envelhecimento se torne visível.


Cada pessoa envelhece de forma diferente.

Algumas apresentam maior perda de volume. Outras desenvolvem mais flacidez. Há quem apresente alterações predominantemente na pele e há quem tenha uma remodelação óssea mais evidente.

É por isso que não existe um envelhecimento igual para todos.

Observe a imagem abaixo.


À esquerda, vemos uma face jovem, na qual as estruturas profundas ainda se encontram bem posicionadas e trabalham em equilíbrio.

À direita, observamos o efeito cumulativo do envelhecimento. Ossos, ligamentos, músculos, gordura e pele sofreram alterações fisiológicas ao longo do tempo. Como consequência, o suporte facial diminui, os tecidos deslocam-se gradualmente e o rosto passa a apresentar sulcos mais marcados, perda do contorno mandibular e flacidez.


É exatamente esse conjunto de alterações que faz com que, um dia, nos olhemos ao espelho e sintamos que o rosto envelheceu.

Na maioria das vezes, não foi uma única ruga que apareceu.

Foi a soma de pequenas alterações anatómicas que aconteceram ao longo de muitos anos.





Então por que o pescoço parece envelhecer primeiro?

Esta é uma das perguntas mais frequentes que recebo em consulta.

A maioria das pessoas acredita que o problema está apenas no pescoço.

Mas, na realidade, o pescoço raramente envelhece sozinho.


Quando os tecidos da face começam a perder sustentação, deslocam-se gradualmente para baixo devido à ação da gravidade, da perda de elasticidade dos ligamentos e das alterações naturais do envelhecimento.

Esse movimento modifica o contorno mandibular, favorece o aparecimento da papada e faz com que o pescoço pareça ser o principal responsável pelo envelhecimento do rosto.


Na verdade, ele apenas revela alterações que começaram muito antes e em estruturas localizadas acima dele.

Grande parte do que observamos no pescoço é consequência da descida progressiva dos tecidos da face.


Por isso, quando o pescoço já apresenta sinais evidentes de envelhecimento, normalmente não faz sentido iniciar um tratamento exclusivamente nessa região.


Na maioria dos casos, isso representa um investimento com resultados limitados, porque a verdadeira origem do problema continua sem ser tratada.


Costumo explicar isto através de um exemplo muito simples.

Imagine a construção de uma casa.

Ninguém começa pelo telhado.

Primeiro são construídas as fundações.

Depois levantam-se as paredes.

Só então o telhado faz sentido.


O rejuvenescimento facial segue exatamente o mesmo princípio.

Quando o objetivo é restaurar o suporte do rosto, precisamos compreender onde ocorreu a perda de sustentação e atuar primeiro nessas estruturas.

Só depois faz sentido tratar as consequências que surgiram mais abaixo.


É por isso que uma avaliação individual é tão importante.

Dois pacientes podem apresentar exatamente o mesmo pescoço envelhecido e, ainda assim, necessitar de abordagens completamente diferentes.

O tratamento nunca deve ser orientado apenas pela região que mais incomoda o paciente, mas sim pela origem anatómica do problema.

 

 


Ossos envelhecem também

Quando pensamos no envelhecimento do rosto, normalmente lembramo-nos da pele.

Algumas pessoas associam o envelhecimento à flacidez.

Outras pensam nas rugas.


No entanto, existe uma estrutura que quase nunca é lembrada: o osso.

Sim, os ossos do rosto também envelhecem.


Ao longo dos anos, eles sofrem um processo natural chamado remodelação óssea.

Em algumas regiões ocorre reabsorção, ou seja, há perda de volume ósseo. Noutras, acontecem pequenas alterações na sua forma.

Essas modificações são discretas, lentas e fazem parte do envelhecimento fisiológico.

Embora não sejam facilmente percebidas no dia a dia, influenciam diretamente a aparência do rosto.


Observe a imagem abaixo.

As regiões em torno das órbitas (olhos), do nariz, das maçãs do rosto e da mandíbula sofrem alterações graduais ao longo dos anos.


À medida que essas estruturas mudam, os tecidos que repousam sobre elas também perdem suporte.


Como consequência, começamos a observar sinais muito familiares:

  • sobrancelhas mais baixas;

  • excesso de pele nas pálpebras;

  • bolsas sob os olhos;

  • perda da definição mandibular;

  • diminuição do suporte dos lábios;

  • alterações no contorno do rosto.


Muitas pessoas acreditam que estas alterações acontecem apenas porque a pele envelheceu.

Na realidade, a pele está apenas a acompanhar as mudanças das estruturas que lhe dão suporte.


Figura – Representação esquemática das alterações ósseas relacionadas com o envelhecimento facial. As modificações ocorrem de forma gradual e influenciam o suporte dos tecidos moles, contribuindo para as alterações observadas na face ao longo dos anos.




Conseguimos tratar os ossos?

Esta é uma dúvida muito frequente.

Não conseguimos devolver os ossos exatamente ao formato que tinham quando éramos jovens.


No entanto, conseguimos compreender como essas alterações influenciaram a posição dos tecidos e atuar sobre pele, gordura, músculos e ligamentos para devolver suporte, proporção e naturalidade ao rosto.


É precisamente por isso que dois pacientes podem realizar o mesmo tratamento e obter resultados diferentes.

Cada rosto envelhece de forma única.

 

 


Imagine um lençol sobre uma estrutura

Vou utilizar um exemplo simples.

Imagine um lençol.


Se o estender sobre uma cama, ele assumirá o formato da cama.

Se o colocar sobre uma cadeira, adaptará o seu formato à cadeira.

A pele comporta-se de forma semelhante.

Ela adapta-se às estruturas que lhe dão suporte.


Quando o formato dos ossos se modifica ao longo dos anos, os tecidos superficiais também passam a acompanhar essas alterações.

É por isso que nenhum tratamento consegue reproduzir exatamente o rosto que tínhamos aos vinte anos.


O objetivo do rejuvenescimento não é voltar atrás no tempo.

É compreender essas alterações e restaurar equilíbrio, sustentação e naturalidade, respeitando a anatomia de cada pessoa.

 

 


Por isso nem sempre tratar apenas a pele é suficiente

É natural procurar tratamentos para melhorar a textura da pele, suavizar rugas ou devolver luminosidade ao rosto.


Todos esses tratamentos têm o seu papel e podem trazer excelentes resultados quando bem indicados.

No entanto, quando existe perda de sustentação facial, é importante compreender que a qualidade da pele representa apenas uma parte do processo de envelhecimento.


Cada paciente envelhece de forma diferente.

Em algumas pessoas predominam alterações da pele.

Noutras, observa-se uma perda mais evidente de volume.

Há ainda quem apresente maior flacidez dos tecidos ou alterações ósseas mais marcadas.


É precisamente essa avaliação global que permite definir a estratégia mais adequada para cada caso.

Quando o principal objetivo é melhorar a qualidade da pele, direcionamos o tratamento para a hidratação, a regeneração celular, a estimulação do colagénio e a melhoria do seu funcionamento biológico.


No entanto, esse é um tema que merece uma abordagem própria.

Falaremos sobre ele no artigo "Entendendo a Vida da Pele", onde explicaremos, de forma simples, como a pele funciona e porque envelhece.

 

 

 

O objetivo não é transformar

Existe uma ideia que gosto de transmitir a todos os pacientes.

Rejuvenescer não significa mudar a identidade de uma pessoa.

Também não significa tentar voltar aos vinte anos.


O verdadeiro objetivo é compreender como aquele rosto envelheceu e respeitar a sua anatomia durante todo o processo.

Mais do que apagar rugas, procuramos restaurar equilíbrio, proporção e naturalidade.

Porque, muitas vezes, o envelhecimento começou muito antes de a primeira ruga aparecer.

 

 


A verdadeira expectativa

Existe um detalhe que considero muito importante.

Nenhum tratamento é capaz de interromper o envelhecimento.

Também não conseguimos devolver ao rosto exatamente a anatomia que ele tinha há vinte ou trinta anos.


O que conseguimos é reduzir os sinais do envelhecimento, restaurar parte da sustentação perdida e devolver uma aparência mais descansada, harmoniosa e natural.


Este é o verdadeiro conceito de rejuvenescimento.

Não parecer outra pessoa.

Não parecer artificial.

Nem aparentar uma idade que biologicamente não corresponde à realidade.


O objetivo é não aparentar estar mais envelhecido do que realmente se está.

É olhar para o espelho e reconhecer-se novamente.

Mantendo a sua identidade.

 

O envelhecimento facial é muito mais do que o aparecimento de rugas.

É um processo contínuo que envolve pele, gordura, músculos, ligamentos e ossos.

Compreender esse mecanismo permite-nos perceber porque dois rostos da mesma idade podem envelhecer de forma completamente diferente e porque dois pacientes, aparentemente semelhantes, nem sempre necessitam do mesmo tratamento.


Um bom tratamento começa sempre pelo conhecimento.

Quanto melhor compreendemos a anatomia e o processo de envelhecimento, mais conscientes se tornam as decisões e mais naturais tendem a ser os resultados.


Lizia Borrello

Coordenadora de Qualidade e Processos



Sobre a autora

Dra. Lízia Borrello, é Cirurgiã Buco Maxilo Facial e Biomédica, atua há mais de duas décadas na área da saúde, ensino e anatomia aplicada. Este artigo tem caráter exclusivamente educativo e foi elaborado com base na literatura científica sobre envelhecimento facial, com o objetivo de traduzir conceitos complexos para uma linguagem acessível ao público geral.




REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

 

LAMBROS, Val S. Observations on periorbital and midface aging. Plastic and Reconstructive Surgery, Philadelphia, v. 120, n. 5, p. 1367-1376, 2007.


MENDELSON, Bryan C.; WONG, Chin-Ho. Changes in the Facial Skeleton With Aging: Implications and Clinical Applications in Facial Rejuvenation. Aesthetic Plastic Surgery, New York, v. 36, n. 4, p. 753-760, 2012.


PESSA, Joel E. An algorithm of facial aging: Verification of Lambros's theory by three-dimensional stereolithography, with reference to the pathogenesis of midfacial aging, scleral show, and lateral suborbital trough deformity. Plastic and Reconstructive Surgery, Philadelphia, v. 114, n. 1, p. 265-268, 2004.


COTOFANA, Sebastian et al. The Anatomy of the Aging Face: A Review. Facial Plastic Surgery, Stuttgart, v. 32, n. 3, p. 253-260, 2016.

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